Para que os pensamentos não se percam no éter, e o fumo do pensamento não ande por aí espalhado.
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31 março 2011

Chinesices

O típico chinês é baixo, de olhos rasgados, pele amarelada, cabelo escuro e liso. Como em todo o lado por onde tenho passado, as mulheres há-as bonitas e feias, mas na China todas são lisas como tábuas. Apesar de tudo elas sabem-se produzir, e especialmente nas zonas de bares e restaurantes, elas gostam de se mostrar.

Foi também vulgar durante toda a semana observar as meninas a sair do hotel de manhã, todas produzidas e bem vestidas. Mais tarde viemos a descobrir que o próprio hotel tinha um bar, digamos, “alternativo”, num local discreto e isolado.

A cultura chinesa é bastante diferente da europeia. Fez-me alguma confusão a sua falta de civismo na sociedade, relativamente ao que estamos habituados. Não respeitam qualquer tipo de filas, mesmo para entrar no elevador, e para sair não têm problemas em não sair da frente para deixar os outros saírem. Achei-os um pouco para o badalhocos. Várias vezes passamos por zonas que até são bastante movimentadas, e o cheiro a esgoto entranhava-se no nariz. E até os vimos a fazer as necessidades em plena rua.

As tasquinhas de rua têm comida com aspecto fora do normal, o que só por si pode levar um ocidental a não querer sequer experimentar. O pior é mesmo o cheiro muito estranho e nada agradável que emanava dessas tasquinhas, deixando antever que a comida, além de estranha, não devia ser nada higiénica na sua preparação.

O tabaco é perfeitamente permitido. O hotel tinha apenas um piso de não fumadores, e claro, não era o meu, já que tenho sempre azar nestas coisas. Por isso não rara vez chegava ao quarto com o cheiro característico do tabaco a circular pelo corredor. Nos restaurantes era a mesma coisa.

CIMG3193O trânsito, como não podia deixar de ser numa grande cidade, é caótico. As regras são o de cada um por si, e na primeira vez que andámos de táxi, ficámos agarrados ao banco a rezar para que o autocarro que vinha na nossa faixa não nos batesse. Depois verificámos que era normal pisar contínuos, fazer zigue-zagues de faixas, inversão de marcha entre dois camiões ou autocarros e outras coisas piores, pelo que nos dias seguintes simplesmente nos abstraímos e apreciámos o estilo de condução. Curiosamente não vimos nenhum carro com a mais pequena mossa que fosse.

CIMG3190Nas passadeiras, os peões que se cuidem. Reina a lei do mais forte na estrada, e os carros são mais fortes que as bicicletas, e estas mais fortes que os peões. Se não temos cuidado, somos atropelado por uma bicicleta ou uma motoreta, que circulam quase incógnitas na noite. Pelo menos os semáforos têm a indicação de quanto tempo demora a abrir e a fechar. Tanto os de peões como os dos carros.

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Os ocidentais são vistos pela maioria como um elemento estranho. Da mesma maneira como achamos os chineses todos iguais, eles devem achar o mesmo de nós. O mais curioso é que, dada a dificuldade da língua e do inglês, eles evitam qualquer contacto. Foi engraçado entrar num MacDonalds e verificar que os empregados que estavam no balcão recuaram até à porta da cozinha, com medo que lhes calhasse a eles atenderem-nos. Tiveram sorte, pois não fomos lá para comer mas apenas para ver os menus. Nos restaurantes há sempre pelo menos alguém que fala inglês, pelo que até nos safámos sempre. O mesmo já não se passa com os táxis.

Há por lá também os pedintes profissionais, que até já surtem avisos da parte dos hotéis para os turistas não lhes alimentarem o vício. Nestas alturas dá sempre jeito eles não perceberem puto de inglês, e mesmo que percebessem, pode-se sempre falar português para fingir que não se percebe o que eles querem.

Apesar de todas estas diferenças culturais, umas mais que outras, sempre me senti completamente seguro. E na zona dos bares e da animação noturna, era possível o convívio com os locais. Aí, gente mais nova e mais abertos a aprender inglês, até se esforçavam o suficiente para serem entendidos. O mesmo se passava com alguns dos vendedores de rua de “artesanato”, principalmente os mais novos. E devo dizer que durante toda a semana fui sempre bem tratado.

30 março 2011

Um passeio por Nanjing

Nanjing é uma cidade de tamanho médio dados os padrões da China. Não é especialmente bonita, e nota-se um pouco a névoa habitual das cidades poluídas. Como atracções principais, entre outras, possui o memorial das vítimas do ataque japonês durante a segunda grande guerra, o palácio do imperador, o grande muro da cidade e a montanha púrpura. Ora, como eu fui em trabalho, claro está que não tive tempo para ver nenhuma delas. A única que consegui ver de passagem foi o muro da cidade, uma vez que ficava no caminho entre o hotel e o trabalho.

A cidade é cheia de luzes. Os chineses orgulham-se do que é deles, e o que eles fabricam muito é de facto a electrónica. Por isso é normal haver enfeites luminosos por toda a cidade.

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O hotel, situado na zona central, tinha nos sues arredores uma zona de lojas de artesanato bastante coloridas e muito enfeitadas. Fiquei a descobrir que o artesanato chinês é feito em fábricas, pelo que ao contrário das feiras a que estamos habituados a ver em Portugal, quando eu pedia algo personalizado a resposta, quando me entendiam, era sempre que não podia ser, que já vinha assim de fábrica. Na zona envolvente,  os enfeites são bastante apelativos. As pontes sobre o rio oferecem reflexos luminosos fantásticos.

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É possível de ver a animação turística que paira nesta zona. Os carrinhos puxados pelo chinês, as bailarinas de danças locais que se passeiam no barco, e a típica comida de rua (de que falarei noutro post).

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Os carros típicos para transportar os turistas

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As bailarinas no barco; o movimento na rua.

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Os coloridos enfeites no tecto; o artesanato local.

Esta zona turística é conhecida pela cidade velha e tem animação até mais tarde que o habitual. O rodopio de luzes, pessoas e cores tornam o passeio muito agradável, e não fosse o frio que se fazia sentir, seria um verdadeiro final de tarde em beleza.

29 março 2011

Aventuras na China

Foi com alguma surpresa que apareceu a oportunidade de ir até à China, numa visita de trabalho repentina. Eu, como adoro viajar, sair de vez em quando dos ares habituais, conhecer novas culturas, não me fiz rogado, apesar de saber que iria ter muito pouco tempo para apreciar minimamente o passeio. O destino foi Nanjing, capital do sul (traduzindo o nome), situada a cerca de 300Km a Oeste de Shangai.

Depois de 24 horas de viagem, e chegado a um fuso horário realmente diferente, foi com um grande ar de cansaço e de sono que cheguei ao guichet da verificação do passaporte. O chinês que lá estava, olhava fixamente para mim e para o passaporte. Depois de me tentar comparar com a fotografia do passaporte, tirada à 5 anos e com cabelo bem mais comprido, lá me pediu outra foto para me identificar. Isto começa bem. No entanto, viria a verificar que os ocidentais são completamente ignorados pelos chineses, devido à barreira linguística. Tirando na generalidade dos que trabalham no aeroporto e nos hotéis, nalguns restaurantes igualmente, nenhum fala inglês. Manter um diálogo mesmo que macarrónico com eles é tarefa impossível.

E dizem as boas práticas de quem visita esse país, que a primeira coisa a fazer é pedir no hotel por um cartão que contenha o nome e a morada do mesmo em chinês, para no caso de necessidade, o entregar ao taxista, e assim poder regressar ao hotel. Mesmo numa “pequena” aldeia com 5 milhões de habitantes, é aconselhável fazer.IMG_5331

A cidade parece muito cinzenta, e não lá muito bonita. Tem alguns prédios altos, e zonas de muitas estradas circundantes da muralha da cidade. Na zona centro, junto ao hotel, parece mais uma Chinatown em tamanho gigante, e no original. A partir da janela do quarto do hotel, temos uma vista sobre a orla de prédios envolventes.

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Como é dia de trabalho, e o cansaço é grande, a descoberta da cidade fica para outra posta, dentro de algumas horas.

19 março 2011

Cuenca

O nome da cidade Espanhola dá origem a muitos trocadilhos na língua portuguesa. Na realidade, situa-se a cerca de 160Km a Sudeste de Madrid, na região de Castilla-La Mancha, a mesma de onde era originário D. Quixote.

Aproveitando os feriados do Carnaval, e uma viagem Fotoadrenalina, chegámos à região até aí pouco conhecida, pelo menos por mim, pelo que fui totalmente à descoberta. A cidade é bastante grande, e a parte turística, a cidade velha, bem no cimo da colina e ladeada por um desfiladeiro e por dois rios (Cuervo e Júcar), é o que mais impressiona, pela seu charme e pela sua imponência sobre o vale.

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A cidade velha de Cuenca, situada no cimo do desfiladeiro

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Pormenor de uma rua da cidade velha, e da Catedral.

A maior atracção da cidade são as casas colgadas (suspensas), literalmente sobre o desfiladeiro. Sem as puder observar de dentro, a visão de fora já é surpreendente. A vista do miradouro sobre o desfiladeiro e as casas colgadas abstraem-nos do frio que se faz sentir nesta altura do ano.

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Vista do miradouro sobre as casas colgadas

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Vista sobre a estrada e o vale do Rio Júcar

Cuenca é também o nome da província, que além da cidade, oferece excelentes paisagens naturais, muitas delas propícias a saudáveis caminhadas bem acompanhados pela envolvente Natureza. A região é composta por rochas calcárias (carbonato de cálcio) que ao longo dos anos, com o desgaste da erosão e das águas das chuvas e dos rios, foram escavadas e apresentam nos dias de hoje autênticas obras de arte naturais.

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Paisagem calcária de Las Majadas.

É o caso da ciudad encantada, outro dos ex-libris da região. As rochas foram associadas pelos olhos populares a objectos ou situações de acordo com a sua forma, pelo que podemos encontrar uma luta entre um elefante e um crocodilo, dois amantes a beijarem-se, uma foca, ou o postal de entrada em forma de um cogumelo gigante.Cuenca 383

O cogumelo gigante da Ciudad Encantada.

As covas do lobo e as lagoas são outros pontos turísticos interessantes. As primeiras são enormes crateras na rocha, provocadas pela erosão, que impressionam pelo seu tamanho, como se de os vestígios de um meteorito se tratassem. As segundas, formadas com o mesmo princípio, mas no caso a erosão escavou até ao lençol freático, construindo assim um lago, tornando a paisagem mais agradável e brilhante. A Natureza é de facto um arquitecto fantástico.

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Uma Cova de Lobo

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A lagoa de la Gitana em Canãda del Hoyo.

A nascente do Rio Cuervo situa-se bem no cimo da serra, onde a caminho se pode observar a Ventana del Diablo, um miradouro natural sobre o rio, de uma imponente altitude e de uma paisagem natural de beleza invulgar. Pena que não chegássemos a tempo de a ver com luz, pelo que deixo a imagem à imaginação de cada um para que possam aguçar o seu apetite para uma visita.

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Vista do miradouro da Ventana del Diablo.

Passado o planalto de Cuenca, pode-se observar a terra bem tratada pelos agricultores, numa paisagem que se torna árida para a vista, mas útil para a sociedade.

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Paisagem de uma pradaria

E no caminho de regresso a Madrid, tempo para uma passagem em Mota del Cuervo, onde se pode observar a paisagem que D. Quixote tanto perseguia, atrás da sua Dulcinea.

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Os moinhos de Castilla-La Mancha, e a estátua de D. Quixote.

Nesta viagem houve ainda tempo para convívio e tertúlias, acompanhados per deliciosas refeições de carne e peixe. Ficam também na memória os bocadillos e montaditos típicos de Espanha, com os seus maravilhosos queijos e enchidos tradicionais que serviram de base de alimentação durante esta estadia.

21 janeiro 2011

Velejar

Pela primeira vez na minha vida, andei de barco à vela. Sempre considerei um passatempo elitista (afinal não é qualquer pessoa que tem um barco), mas apareceu a oportunidade de experimentar, e qual Bartolomeu Dias na sua caravela cheia de velas triangulares, aproveitei.

Cheguei à conclusão que a coisa não é tão simples como parece. Há muita ciência envolvida, e dá muito trabalho. É necessário saber o que se está a fazer, perceber de onde vem e com que força vem o vento, e esticar as velas de modo a poder aproveitá-lo da melhor forma. O barco, esse, quando está à bolina, quase que parece que vai tombar. É preciso saber cortar as ondas, nunca de popa, e contar com os balanços a que o barco está sujeito (bendito comprimido para o enjoo).

No meio dos termos técnicos, como genoa, virar de bordo, cambar, molinete, ir à bolina, e de toda a ciência e esforço físico necessário para se controlar um barco destes, puxar cabos, (des)enrolar cabos, dar ao molinete, ir ao leme, trocar de lado para não irmos inclinados e levar com os solavancos, o domínio da técnica, o levar com o vento no cabelo, e o vencer as ondas do mar, dá-nos uma sensação de conquista e de liberdade.

Continuo a preferir desportos em terra, mas foi sem dúvida uma bela experiência, que quem sabe, voltarei a repetir.

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O horizonte ao fundo

IMG_0271A enrolar o cabo no molinete

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Ao leme, já na chegada

11 dezembro 2010

Bella Italia

Como já devem ter reparado, as minhas férias no início de Dezembro passaram-se em Itália. Aproveitando o feriado a meio da semana, lá consegui tirar uns dias de descanso, longe da azáfama do trabalho, pouco habitual para a época.

O destino, mais especificamente, incidiu na região dos lagos, na zona norte de Itália. A vista sobre os Alpes desde o lago Maggiore é algo que eu nunca tinha visto com céu limpo, e que me deslumbrou.

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As pitorescas cidades italianas são sempre muito interessantes. As ruas são autênticos monumentos, com edifícios mais ou menos velhos, e mais ou menos restaurados, mas que dão sempre para fotografias excelentes. E desta vez, até a neve ajudou ao cenário.

Bérgamo, Como, Varese, Bellagio, Laveno foram as cidades italianas visitadas desta vez, cada uma com as suas características únicas. Varese é uma cidade mais virada para o comércio, pelo que não é tão turística como as restantes. É uma cidade importante para a região onde está inserida, e fornece os serviços essenciais para a população.

Como é famosa por ser onde vive o ator George Clooney, onde mais uma vez, passou despercebido, o malandro, talvez na sua loja Nespresso mais próxima de casa. Bérgamo fica situada a alguns quilómetros de Milão, e a zona da cidade alta é muito pitoresca, cheia de ruas estreitas, lojas típicas de comércio tradicional e artesanato e alguns monumentos.

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Bellagio é a terra que dá nome ao famoso casino-hotel de Las Vegas. Situada no vértice do lago di Como, é uma aldeia pequena, mas rodeada de uma paisagem soberba.

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Laveno é uma das cidades mais importantes à beira do lago Maggiore. Conhecida pela sua Funivia, que está fechada na maior parte dos dias de Inverno, do cimo do monte tem-se uma vista fenomenal sobre o lago. Como não foi possível subir até lá, a vista a partir da igreja já é por si interessante.

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Bem perto de Laveno, situa-se a ermida de Santa Catarina del Sasso. Construída sobre uma falésia, a igreja é pequena mas acolhedora. A vista sobre o lago Maggiore é privilegiada devido à sua localização.

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Ainda houve tempo para dar um salto à Suiça, que fica bem perto desta região. A cidade escolhida foi Lugano, à beira do lago com o mesmo nome. A diferença de mentalidade entre o povo vizinho é enorme, desde logo com o respeito na estrada, quer pelos peões, quer pelos outros condutores. E o embelezamento da cidade, com os jardins sempre aparados, contrasta com algum desleixe típico dos povos latinos, entre os quais o italiano. Na cidade, já com alguma dimensão, é vulgar encontrar lojas de venda de chocolate artesanal, um verdadeiro ex-libris do país.

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E claro que a visita não podia terminar sem uma passagem pela loja da fábrica de chocolates Lindt, situada perto de Varese, onde um guloso como eu se pode perder no meio de tanta variedade.

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05 dezembro 2010

Neve

Adoro neve. Desde que não seja em demasia e não nos impeça de sair de casa (ou do aeroporto). Talvez por viver numa zona do país onde raramente neva, parece que sinto a necessidade de ver, tocar, pisar neve quando chega a altura de Dezembro.

E por isso quando chega a altura de Dezembro resolvo meter-me num avião e ir para paragens onde a neve é algo abundante. O frio é sempre relativo, mas a alegria que sinto ao estar na neve supera todos os problemas climatéricos. Além de que é muito giro ver os flocos a cair e muito mais simpáticos que qualquer chuva.

E nada melhor que um belo de um chocolate quente italiano com natas para matar o frio que se faz sentir, e adocicar o momento com tão deliciosa degustação.

Com a chegada da neve, o Natal está mesmo à porta, e é muito normal ver-se nos países europeus as tradicionais feiras de Natal, com os mais variados artigos desde artesanato, até comidas, e o indispensável vinho quente da época.

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Vista de Sacro Monte

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Cai neve em Bérgamo

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Os enfeites naturais da neve

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Pequena feira de Natal em Ispra

17 outubro 2010

A saga do bem-vestir

A presença num baptizado requeria que me vestisse de uma forma um pouco mais clássica que o meu normal do dia a dia. E na hora de ir passar o fim de semana fora, levo a roupa na bagagem. Umas calças mais clássicas, de sarja preta, um blazer preto, sapatos pretos que descobri aqui pelos armários de casa, duas camisas, uma mais desportiva e outra para andar mais atilado.

Na véspera lembro-me que o meu cinto é castanho, o que não pode ser, e por isso, vou ao shopping comprar um cinto preto, a um preço acessível, se é que isso existe nos dias de hoje. Parece estar tudo preparado, desta vez. Errado.

Ao olhar para a camisa clássica, já em casa, reparo que ela parece estar estragada. É verdade que já não é nova, mas estando dentro do armário deveria estar no mínimo usável. E ao experimentar a camisa desportiva, vejo que não se adequará à situação. Planos para o dia seguinte: levantar cedo e ir ao shopping às 10h da manhã, comprar uma camisa.

Já vestido a preceito, com a camisa de recurso e a caminho do shopping, reparo que o pé direito anda mais à vontade dentro do sapato que o pé esquerdo. Eis que olho para o sapato e reparo que a sola do mesmo está quase descosida na totalidade num dos lados, o que me deixa na situação arriscada de chegar ao fim do dia com as meias no chão. Bem, pode ser que o mesmo se aguente hoje, penso eu, enquanto escolho uma camisa, a um preço menos assustador que o normal das que tinha visto até então.

Ao passar num dos corredores do shopping, reparo num pequeno guichet onde em letras grandes se pode ler: “reparações rápidas, chaves, cintos, sapatos”. É mesmo aqui que eu vou já de seguida. A senhora que lá está logo se aproxima:

Sra - Faça favor!

Eu - Olhe, eu queria saber se dá para colar a sola deste sapato.

Sra - Mas olhe que o sapato é cosido e não colado!

Eu - Pois, eu sei, mas só preciso que ele dure hoje, que amanhã já não preciso dele.

Sra - Dê cá o sapato que eu vou ver se a cola agarra isso.

Passados alguns minutos, e já depois de me ter dito para esperar um pouco enquanto a cola secava, eis que me surge com o sapato colado e com a sola no sítio. Não me cobrou dinheiro, e acabou por me salvar o dia, que não queria nada ter que comprar um par de sapatos. E os sapatos duraram todo o dia, e toda a noite na caminhada que fiz para casa sobre calçada. Estão de novo no armário e prontos para outra, pelo menos até se descolarem outra vez.

05 outubro 2010

A aventura dos U2

Sempre que os U2 vêm a Portugal, a aventura começa logo nas intermináveis filas para tirar os bilhetes, com mais de um ano de antecedência. Os fãs dormem ao relento durante dias para conseguir um bilhete, cujo preço já é por si só uma exorbitância. Confesso que não há banda nenhuma que me leve a dormir ao relento para conseguir bilhetes. Prefiro a minha dignidade. E por isso, o tempo foi passando, comigo já conformado que também não iria ao concerto desta vez. Os bilhetes esgotaram em poucas horas, e os que seriam postos na revenda pelos novos donos custariam tanto como um ordenado. E o mesmo se passa para o segundo concerto, anunciado uns dias depois, para o dia adjacente.

Até que algumas semanas antes, me perguntam se eu quero ir ao concerto, pois uma amigo ainda tem bilhetes disponíveis. E eu, claro que aproveito, mesmo sendo um preço tipicamente proibitivo. Mas são os U2, e o bilhete custou mesmo aquele preço, por isso, é uma bela oportunidade. Com o aproximar dos dias do concerto, deparo-me com mais e mais ofertas de bilhetes disponíveis para venda. Bilhetes que foram comprados, na sua maior parte com a ganância das pessoas, que ao chegarem próximo da data dos concertos se vêem com os bilhetes na mão, inúteis.

Foi por isso sem grande espanto que observei, ao chegar a Coimbra, que havia bastante disponibilidade de pessoas a vender bilhetes na rua. Também havia quem os quisesse comprar, e a esses eu chamo uns optimistas, para além de sortudos por terem arranjado os bilhetes tão em cima da hora.

A cidade de Coimbra estava preparada para a festa. A viagem de comboio fez-se sem sobressaltos, e os autocarros criados para o efeito cumpriram o seu dever, quer à chegada, quer à partida, o que evitou a confusão das filas intermináveis de trânsito que se geraram para o acesso à auto-estrada.

No comboio de regresso, com a alma cheia do melhor concerto que alguma vez assisti, e com o corpo cheio de cansaço e de sono, acordei sobressaltado com a voz do revisor da CP, que com o seu ar de gozo gostou de me ter acordado para pedir os bilhetes. Depois disso, só acordei em Vila Franca de Xira, a poucos minutos da Estação do Oriente, onde saí já passava das 4h da manhã.

No dia seguinte, acordar o mais cedo que consegui para ir trabalhar. Cheio de sono, sem vontade, mas com um sorriso enorme e a alma brilhante das aventuras do dia anterior. Não me importaria de repetir tudo de novo.

U2

Foi no passado dia 3 de Outubro, em Coimbra,  bem no centro do país, e onde as ruas têm nome, que assisti pela primeira vez a um concerto daquela que é considerada por muitos como a melhor banda do mundo. Foi também a minha primeira vez num concerto de estádio, e devo dizer, que concerto. Todas as altas expectativas que tinha foram superadas. Por serem os U2, famosos pelas suas inovações nos concertos, cheios de tecnologia, luz e outros efeitos, para além de músicas que são agradáveis, e muitos êxitos que se tornaram verdadeiros hinos.

O palco surpreende logo pela estrutura de garra, e mais chegado para o meio do campo, ao contrário do que estamos habituados nos concertos. Permite que haja público a toda a volta, e com uma passadeira a toda a volta do palco onde os U2, principalmente Bono, Edge e Adam, podem passear durante a actuação. Larry está mais fixo na bateria, sobre uma plataforma giratória que vai virando para vários lados. Excepção feita quando percorre toda a passadeira de jambé, tendo também o seu momento de aplauso.

Image(118) O palco em forma de garra, antes do concerto.

A primeira parte do espectáculo ficou a cargo dos nova-iorquinos Interpol, que provavelmente nunca pensaram actuar num recinto tão grande e num palco tão sofisticado. Boa música, estilo indie rock, para aquecer o público que aguardava ansiosamente pelos que se seguiriam.

Faltava um bom bocado para as 22h, quando ao som de Space Oddity de David Bowie, os U2 entram em palco para delírio do público presente. E nada como Beautiful Day para animar uma beautiful night que se viria a verificar, mesmo com ameaça de chuva.

Image(131)Ao longo das duas horas de um Magnificent concerto, debaixo de um palco iluminado ao som pop da melhor banda do mundo, e sem linha no horizonte que os guiasse, os U2 proporcionaram-me aquele que foi até hoje o concerto da minha vida. O novo álbum esteve em destaque, mas houve tempo para os incontornáveis clássicos, debaixo de um céu que não era vermelho mas alaranjado pelas luzes da cidade a reflectir nas nuvens. Um concerto que teve os seus momentos intimistas, com baladas inesquecíveis como Miss Sarajevo, ou o inigualável One, e momentos de puro êxtase ao som de Vertigo ou Get on your boots.

Image(127)Houve tempo para os habituais apelos às causas humanitárias, e até contou com a participação da amnistia internacional. O apelo à libertação de Aung San Suu Ky e à paz no médio Oriente estiveram presentes, numa faceta que lhes é bastante conhecida. Goste-se ou não que o façam, o que é certo é que Obama ganhou um prémio Nobel da Paz por fazer bastante menos. Há pelo menos que lhes dar o mérito de tentarem, mesmo que na prática sirva para atrair mais publicidade.

Os U2 mostraram que têm uma máquina de espectáculo muito bem oleada. Nada ficam a dever ao acaso, e Bono sabe melhor que ninguém como levar um público ao rubro. E nada melhor que terminar com um belo moment of surrender para a despedida, que ainda teve tempo para um singing in the rain vocal quando a chuva começou a cair.

Eu fiquei rendido, e definitivamente I will be with U(2) again.

26 setembro 2010

Lisboa, o encanto da cidade

Mudei-me de malas e bagagens para Lisboa com 18 anos, na altura da entrada na Universidade. Já lá vão uns bons anos. E tirando os tempos de mais ou menos estudo, em que se saía à noite para a habitual borga estudantil, raramente me dediquei ao turismo em Lisboa. Não por falta de tempo, apenas porque ao passar toda a semana em Lisboa, o que me apetecia era mesmo ir para outras paragens, aliviar do stress e da correria.

Hoje, passados muitos anos, já não consigo estar muito tempo longe deste stress e desta correria da cidade. E apesar de conhecer os locais turísticos da cidade, nunca os apreciei como devia, até recentemente, aproveitando a visita de familiares.

IMG_3750 Vista do miradouro de Santa Luzia sobre os bairros populares

Apanhando o eléctrico 12 na Praça da Figueira, ainda na sua forma antiga, em ferro, e sem janelas, sobe-se até aos bairros do castelo, onde no  miradouro de Santa Luzia se podem observar alguns dos bairros mais famosos da cidade, como a Graça e Alfama, e a vista sobre o rio. Descendo pelas ruas estreitas e inclinadas chega-se à Sé catedral de Lisboa, edifício do séc. XII imponente sobre o bairro. No seu interior, a nave da igreja e a beleza dos seus vitrais são visitas obrigatórias, pelo jogo de luzes que mostram.

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A Sé de Lisboa

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Vitral da Sé de Lisboa

Seguindo pelo bairro da Madalena, chega-se à zona do Terreiro do Paço. A Rua Augusta, outrora famosa pelas suas lojas de renome, agora é pródiga em cafés turísticos, e lojas de artigos mais acessíveis. E dado o calor que se faz sentir, nada como uma paragem para uma bebida refrescante, com vista para o magnífico arco e a arquitectura pombalina da zona envolvente.

IMG_3767 Rua Augusta e o arco

A Praça do Comércio, restaurada recentemente, desilude. A troca do chão em calçada portuguesa, que em tempos desenhava padrões interessantes no chão, pelo ladrilho de cimento, torna-o um local bem menos bonito, e muito menos acolhedor. A estátua de D. José I agora parece sozinha no meio da praça, rodeada de um vazio enorme. O cais das colunas, apresenta um cheiro nauseabundo, devido aos esgotos que ainda jorram para o rio Tejo naquela zona. E a quantidade de tainhas que se alimentam desses dejectos ilustram bem a imundice que aquelas águas apresentam. O Tejo e a cidade de Lisboa merecem melhor.

IMG_3771Cais das colunas, no terreiro do Paço

Subindo pela Rua do Ouro, chega-se ao elevador de Santa Justa. Um edifício do séc. XIX, já reparado mais recentemente, que permite uma vista fabulosa sobre a baixa da cidade, desde o Rossio até ao Terreiro do Paço, e o castelo ao fundo, como que a reinar sobre Lisboa.

IMG_3786Elevador de Santa Justa

 IMG_3791Vista sobre o Castelo de São Jorge

 IMG_3795 Vista sobre o Rossio

Passando pelo elevador, ao lado do convento do Carmo, chega-se ao Chiado, onde se pode parar para um café junto da estátua de Fernando Pessoa, ou mesmo um gelado magnífico no Santini, bem em frente dos novos armazéns do Chiado. Um passeio a pé pela zona circundante vale a pena, para apreciar a mistura da arquitectura pombalina com as modernas construções, já depois do incêndio do Chiado.

Para quem como eu mora em Lisboa, foi um redescobrir da cidade num passeio como turista, que me fez gostar mais de Lisboa, com uma perspectiva diferente do que estou habituado.